Artigo publicado na revista Desktop edição 90. Autor: Marcelo Copetti. O conteúdo deste artigo, incluindo texto, imagens e ilustrações, não podem ser reproduzidos em parte ou na íntegra, sem a autorização por escrito do autor. www.dtp.com.br
“Este é o vermelho; ou não?”. Ou, ainda, “esta não é a cor que pedi!”. Estas, ao lado de tantas outras, são exclamações comuns entre profissionais que trabalham com arquivos gráficos. Se você já passou por uma dessas situações - e, certamente, já passou - é um sério candidato a implantar um sistema para gerenciamento de cores em seu ambiente de produção..
Cores: um elemento sempre crítico Entre tantos outros temas que fazem parte do universo gráfico, a “cor” é uma das piores, principalmente quando se leva em conta o ponto de vista dos clientes que, por uma série de motivos, não compreendem por que aquela cor tão bonita na tela do computador não pode ser reproduzida na impressão. Outro item polêmico é que os processos que envolvem a visualização de cores são, basicamente, subjetivos, isto é, cada pessoa “enxerga” cores de uma forma diferente - bem como cada dispositivo “mostra” essas cores de forma condizente com seu status de calibração ou abrangência de seu gamut. Esses dois exemplos servem para ilustrar o porquê de o processo de gerenciamento de cores ser tão importante em um fluxo de trabalho gráfico profissional e high end. Sendo assim, a partir de agora, começaremos a discutir vários dos pontos que fazem parte deste universo chamado de Sistemas de Gerenciamento de Cores, ou, em inglês, Color Management System (CMS). Colorimetria, curvas, espectros, saturação, brilho, entre outros termos, passarão a configurar como palavras comuns a partir deste momento.
Alguns desafios: uniformidade de processos O principal desafio na implantação de um processo de gerenciamento de cores é tornar o padrão de cores de todos os dispositivos de trabalho um item uniforme. Cada equipamento reproduz as cores de maneiras diferentes; o monitor, por exemplo, gera tons por emissão de raios luminosos vermelho, verde e azul (RGB), que são os tons básicos utilizados na construção das imagens em tela. A variação na intensidade de cada uma dessas cores forma, ao final, um tom diferente. Por outro lado, temos equipamentos que trabalham de maneira inversa. Impressoras, por exemplo, criam cores com base na luz refletida sobre os impressos. Dessa forma, a luz ambiente implica sobre as tintas e é refletida parcialmente, gerando o tom que “enxergamos” no papel ou mídia de impressão. Aqui temos o primeiro grande problema a ser resolvido: criar cores a partir de sistemas diferentes em termos de emissão e reflexão de tons e luz.
Histórico Os processos de gerenciamento de cores tal como conhecemos hoje surgiu em 1993, através do Consórcio Internacional de Cores (International Color Consortium), formado pela Adobe, Agfa, Apple, Fogra (Associação Gráfica Alemã), Microsoft, Kodak, Sun, Silicon Graphics e Taligent com o objetivo de buscar um padrão eficiente e barato de se trabalhar com qualidade com cores, uniformizando processos e acabando com muitos entraves na impressão. Naquele momento, o que se via no mercado eram equipamentos baseados em soluções e tecnologias proprietárias e caras, onde cada dispositivo (impressora, scanner, Imagesetter etc.) “falava” um determinado padrão de cores e, como tal, exigiam o uso exclusivo de determinados tipos de papel, tinta etc. para que as cores fossem reproduzidas de maneira correta. Sendo assim, esse consórcio e a nova proposta para gerenciamento de cores tinha como objetivo oferecer uma ferramenta de comunicação entre tons e dispositivos que fosse, acima de tudo, multiplataforma. Para tanto, o primeiro passo foi criar um modelo de representação de cores que incluísse todos os dispositivos; nesse quesito, o modelo CIE XYZ já se enquadrava, mas não era possível medir as diferenças entre as cores. Foi então que se idealizou o modelo CIE Lab, que serviria como um espaço de cores independente e permitiria o cálculo da diferença entre cores através do Delta E. Ou seja, o espaço de cores passou a ser utilizado como “ponte”. Antes, a conversão de cores era feita através de tabelas (LUT) com valores de entrada e saída em RGB e CMYK. Com um dos pilares do gerenciamento de cores estabelecido, faltava então criar um formato de arquivo que contivesse as informações necessárias para um processo eficiente; assim nasceu o conhecido perfil ICC, um arquivo de texto multiplataforma que pode ser usado por qualquer sistema operacional. Esse arquivo contém valores que delimitam o espaço de cores, a descrição do dispositivo e identificação do espaço de cores (RGB, CMYK, Lab etc.). A estrutura desse documento foi desenvolvida para trabalhar os valores em dois sentidos: o do dispositivo para Lab e viceversa. Por exemplo, ICCs de monitores convertem valores de RGB para Lab e de Lab para RGB, enquanto os de uma impressora offset convertem de CMYK para Lab e de Lab para CMYK. Fica fácil, então, imaginar a mecânica do sistema. O valor RGB entre pelo ICC do monitor e é convertido para Lab e esse mesmo padrão é usado com o ICC da offset para transformar Lab em CMYK. Por último, o sistema operacional foi escolhido como agente gerenciador do processo com o objetivo de obter um fluxo de gerenciamento de cores uniformizado, evitando assim que cada empresa de software lançasse um tipo de aplicativo para controle de cores diferente. Essa uniformidade de processo iria facilitar a implantação do gerenciamento de cores em todas as empresas de softwares mas, infelizmente, tal objetivo não foi alcançado, pois, atualmente, só existe um sistema operacional - o Macintosh - comprometido com aplicações de gerenciamento de cores. O Windows, por exemplo, ainda não apresenta recursos satisfatórios nesse sentido. Um outro exemplo de empresa que vem trabalhando de maneira eficiente com aplicativos para gerenciamento de cores é a Adobe.
Espaço de cores independente Este é um dos principais conceitos do gerenciamento de cores. Os sistemas anteriores, analógicos, tinham tantas variáveis que era praticamente impossível gerenciá-los. Com o espaço de cores independente, usando-se o Lab, criou-se uma forma simplificada dentro do amplo contexto em que ocorrem os processos de gerenciamento de cores. Como vimos, o Lab se tornou uma referência, sendo usado para converter valores entre formatos diferentes - RGB e CMYK, por exemplo. Desta forma, o mapeamento das cores de cada dispositivo se tornou padronizado e se conseguiu uma conversão mais precisa do que aquela baseada no uso de tabelas.

Fatos Quando o assunto é gerenciamento de cores, o usuário normalmente passa por um algumas variáveis que são fundamentais de serem constatadas e analisadas. Abaixo, faremos uma relação dos itens que merecem atenção especial no processo: 1. O gerenciamento de cores não é perfeito, mas é a ferramenta certa e mais precisa hoje à nossa disposição. Apenas ele é capaz de gerenciar toda a informação digital dentro do workflow. 2. Cada dispositivo possui suas próprias características e desvios que devem ser considerados. Os monitores e as impressoras inkjet são exemplos de dispositivos fáceis de serem controlados e de terem seus problemas corrigidos. Já impressoras offset, flexográfica e de rotogravuras são muito complicadas de serem regularizadas. Nesses casos, os usuários costumam se “esquecer” de que o resultado do impresso pode variar muito, inclusive dentro de uma mesma tiragem. A variação na quantidade de água, álcool ou a viscosidade da tinta geram diferenciações entre os volumes impressos e, por isso, esses tipos de processos de impressão necessitam de um controle e monitoramento maiores do que os fluxos em impressoras inkjet. 3. Como os dispositivos variam ao longo do processo, é necessário utilizar um intervalo de tolerância para os resultados. Exigir que todos os resultados sejam exatos é impossível. Essa tolerância é chamada de “Delta E” e foi estabelecida justamente com o objetivo de medir, numericamente e de forma mais precisa, a diferença que pode haver entre o comportamento de cada dispositivo na impressão. 4. A conversão de cores para cada dispositivo é necessária e inevitável. Não há como exigir que as cores impressas em papel jornal, por exemplo, sejam iguais às impressas em papel couché. Mas a conversão feita através dos perfis ICC é muito mais precisa e rápida do que o processo realizado por meio de curvas, brilho e contraste em programas como o Photoshop. O intuito desse tipo de conversão é trazer a cor que não pode ser impressa para um padrão mais próximo o possível do encontrado em jornais.
Pré-requesitos O gerenciamento de cores, para ser aplicado com sucesso, deve seguir alguns requesitos básicos atendidos. Inicialmente, o usuário deve acreditar que o controle é a chave de todo o processo. Para isso, é necessário dotar as empresas com os equipamentos e tecnologias adequadas para controlar o processo. Neste ponto, a impressão deve ser tratada como um processo industrial e não como Artes Gráficas. Mas este não é o requesito mais difícil de ser entendido e implementado. A maior resistência por parte do mercado está na direção da empresa, que reluta em adotar a política de controle, a qual requer uma modificação no fluxo de produção e exige que os funcionários sigam padrões pré-estabelecidos. Vantagens O gerenciamento de cores traz algumas vantagens importantes ao processo. Entre elas, destacam-se: 1. Redução de custos. Sem a necessidade de se fazer reimpressões devido a incorreções nas cores, os custos podem ser bastante reduzidos e otimizados. 2. Aumento de produtividade. O tempo, antes destinado às tentativas e erros (e reimpressão dos materiais rejeitados), torna-se menor, pois agora se está trabalhando com um processo controlado em termos de padrão de cores. Ou seja, tem-se um tempo maior para dedicar-se a um número maior de trabalhos. 3. Repetitibilidade. A empresa torna-se capaz de repetir a impressão de trabalhos com maior rapidez graças ao arquivamento das informações e padrões utilizados nos processos de gerenciamento. Com isso, a qualidade pode ser estandartizada e um mesmo comportamento de cores pode ser reaplicado em vários tipos de trabalhos que possuam os mesmos requesitos. 4. Previsibilidade. A segurança que se tem sobre o comportamento das cores na impressão por meio dos processos de gerenciamento é maior. Com isso, os resultados dos impressos podem ser mais facilmente prognosticados, possibilitando maior agilidade nas tomadas de decisões sobre as aplicações das cores - evitando que os erros sejam percebidos somente na impressão final do material. 5. Qualidade. A empresa passa a dispor de um controle maior durante o processo, o que se traduz como qualidade para os clientes. A qualidade percebida pelos clientes vai além do impresso em si, e envolve também uma maior rapidez na entrega dos trabalhos. Além disso, ao se falar de qualidade, devemos lembrar de que após a implementação do gerenciamento de cores, todo o processo passa a estar padronizado - incluindo opções de certificação ISO. 6. Maior lucratividade. Com a redução dos custos e o aumento da produtividade, o lucro final, certamente, será satisfatório ao final da equação.
Tecnologia e investimento Falar sobre gerenciamento de cores é também falar sobre tecnologia e investimentos. Ao se implantar tais processos, normalmente nos deparamos com os custos que, nem sempre, são bem vistos pelos departamentos financeiros das empresas. Porém, ao se analisar o processo de gerenciamento de cores como um todo - e os benefícios que ele pode trazer -, tem-se um impacto significativo sobre custos relacionados à mão-de-obra, à impressão e à tinta utilizados nos testes para refinamento das tiragens, menor perda de dinheiro com erros e falta de previsibilidade, menor consumo de tinta, menor tempo de acerto de máquina etc. Porém, nem tudo são flores. Os processos de gerenciamento de cores possui algumas limitações importantes, entre elas: 1. Dispositivos de saída. Todo o conhecimento e tecnologia envolvida nesses processos envolve, ao final, o gerenciamento adequado sobre os dispositivos de saída, que devem permitir não somente a configuração de padrões para as cores, como também que esses parâmetros sejam previsíveis. 2. Variação entre dispositivos. A impressão final normalmente é a grande vilã. Com todo o processo implementado, uma impressão sem controle pode gerar grandes variações, muito além daquelas normalmente encontradas em fluxos convencionais de impressão. 3. Iluminação do ambiente. A luz da sala de impressão ou do local onde se estão visualizando as cores influi diretamente sobre o processo de gerenciamento. Nesses casos, é fundamental que se estipule um padrão adequado de iluminação ambiente para que as cores sejam visualizadas e ajustadas de forma correta.
Artigo publicado na revista Desktop edição 90. Autor: Marcelo Copetti. O conteúdo deste artigo, incluindo texto, imagens e ilustrações, não podem ser reproduzidos em parte ou na íntegra, sem a autorização por escrito do autor. www.dtp.com.br |